A Barca… e a Ponte


Velha, carcomida pelo tempo, com a cor gasta como um vestido queimado pelo sol, ainda lá está, sepultada, mas sempre viva na memória e no coração de tantas mulheres e de tantos homens que crescem e vivem no espaço onde se tornou senhora.

Está lá, quieta no tempo! E eu continuo a olhar, a olhar para ela, sempre beijada pelo fulgor das águas cristalinas.

- Diz-me, ó barca, o ministério que escondes no teu bojo, os segredos que guardas no teu regaço, durante tantos séculos!

- Eu fui uma barca; agora, sou apenas uma recordação.

Nesses tempos remotos das origens, de Portugal e da Barca, eu fui a rainha das travessias. Um ilustre varão arrancou-me de troncos rijos, cortou-me e aparelhou-me, fez-me bonita, pôs-me a flutuar e a abraçar margens. Tornou-se o meu senhor e eu, em pouco tempo, transformei-me na Senhora do Lima. A mim vinham ter mercados e viandantes, com os seus alforjes de ouro e, não poucas vezes, com linhagens cheias de roubo.

A mim se dirigiam romeiros e peregrinos, vergados pelo cansaço da longa jornada, mas sempre animados pelo ardor indomável da fé.

A mim me procuravam plebeus famintos e fidalgos, abastados, senhores da Barca e nobres da Nação. Eu era, nesses séculos medievais, a donzela mais desejada! Todos me demandavam, para que os recebesse no meu regaço de segurança e unisse as duas margens num abraço baloiçante sobre as águas do nosso rio.

- Era muito grande o reboliço à tua volta?!

- Ah!, como recordo com saudade e incontido orgulho a azáfama do espalmar dos primeiros colmos, junto ao cais arenoso onde dormia os breves instantes de descanso que me davam. Mais tarde, alinharam pedras e colocaram telhas. E algumas pessoas, depois mais, cada vez mais, desceram de Paço Vedro de Magalhães e de outras paragens e vieram ao meu encontro, fizeram vizinhança com o meu dono.

Eu já era um ponto de encontro! Tinha dado à luz uma Barca florescente, animada, promissora... Uma Barca que não parava de crescer e de se espraiar pela ladeira.

E eu cada vez tinha menos descanso! Ai que fona nos dias de feira, em Ponte de Lima, nas terras de Valdevez ou aqui mesmo, nesta Barca de passagem. Mercadores e aldeões punham-me numa agitação permanente e nem assim conseguia satisfazer tantas vontades e unir tanta margem. Foi, então, que comecei a desfalecer...

- Foi dolorosa, para ti, essa mudança?

- Não. E sabes porquê? Porque quem vive em grande está preparado para desaparecer, a qualquer momento! Este foi o preço do progresso e as dores que senti foram as dores felizes do crescimento. A maior felicidade que podemos viver é quando desfalecemos e morremos para fazer desabrochar jardins frondosos e grandes frutos.

Naquela época, talvez pelo meados do meu tão querido século XIV, outros senhores, que não o meu, trataram de construir outros pontos de união. Os homens e as mercadorias deixaram de deslizar nas águas e o trânsito passou a caminhar sobre o caudal de rio.

Faleceu a barca! Nasceu a Ponte da Barca...

E eu recolhi-me ao silêncio do descanso materno. Aqui, no ventre húmido do Lima que fez de mim uma senhora, repouso atenta ao deslizar dos séculos e ao caminhar garboso da minha filha Todos os dias a contemplo, com vaidade e (ma)terno carinho. Vejo que ela não pára de se debruçar na minha direção e de beijar as águas que me guardam para a eternidade.

É bom ser a barca que não se esquece! E que Ponte da Barca tanto estima.

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