Terça-feira 12 de Dezembro, 2017
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A Vingança de Fernão Gonçalves

Na aldeia de Paços, que faz parte da freguesia de Lara, viveu nos primeiros tempos da monarquia um fidalgo — o conde de Lara — chamado Fernão Gonçalves. Era este fidalgo um batalhador incansável contra os mouros. Casado com uma infanta de Navarra, teve um filho e uma filha. Na luta contra os sarracenos, D. Fernão perdeu o filho, D. Gonçalo, e ficou-lhe apenas a filha, D. Constança.
Uma desgraça nunca vem só; logo a seguir à morte do filho morreu também sua esposa, D. Sancha. Então o seu ódio contra os mouros exacerbou-se. Não podia suportar a tristeza no seu lar quase deserto e encontrou na luta sem tréguas o único lenitivo para a sua dor. Tornou-se impiedoso. Homens e mulheres caíam sob a sua espada. Porém, se deparava com crianças órfãs, o seu furor acalmava e chegava ao ponto de as levar consigo para as empregar ao seu serviço, na ânsia de lhes dar melhor vida e formar-lhes uma alma cristã.
Como não queria mostrar o seu lado fraco, pedia aos seus súbditos que tomassem conta das crianças, mas afastava-as do seu próprio convívio. Certa vez, porém, ainda a filha era pequenita, encontrou-se numa aldeia mourisca com o rei D. Ramiro II, numa famosa batalha contra a moirama. Os cristãos haviam vencido o rei de Córdova. Os sarracenos retiravam em alvoroço. No meio da confusão, um choro de criança fez-se ouvir. Era o de um rapazito de uns sete anos de idade. Tinham-lhe morto o pai, a mãe e os irmãos.
Perante cena tão desoladora, D. Fernão enterneceu-se, mau grado seu. Pegou no menino e ordenou que o levassem para o seu castelo de Viana do Minho. Quando regressou da batalha, fez baptizar cristãmente o pequeno mouro. E porque o rapazito mostrava dotes de extraordinária inteligência, mandou-o educar, dando-lhe os mesmos mestres de sua filha, cuja idade orçava pela do pequeno órfão. Todavia, apesar deste destaque dado por D. Fernão Gonçalves, todos os seus vassalos e servidores chamavam ao pequeno apenas «o Mouro». Outros pareciam ignorar o seu nome de cristão e chamavam-lhe pelo seu nome muçulmano: Abdalá.
O jovem mouro foi crescendo. Grandes eram as ausências de D. Fernão. E o jovem começou a compreender — até porque nada lhe escondiam — que nessas ausências o seu protector empregava o tempo a matar os da sua raça.
Uma dor imensa apertava-lhe a garganta. O sangue fervia-lhe nas veias. A consciência gritava-lhe que devia afastar-se do castelo — apesar do que devia a D. Fernão — e juntar-se aos seus. Todavia, o coração segredava-lhe que, se o fizesse, nunca mais veria a jovem D. Constança. E ele amava-a no seu mais forte sentimento.
Constança teria então quinze anos e ele dezassete. Era tão formosa como ele nunca tinha visto igual. Os seus olhos negros, de expressão doce e profunda, os seus cabelos de ébano, a sua voz suave não lhe saíam dos sentidos. Jamais lhe chamara «Mouro», embora gostasse de o tratar por Abdalá. Estudavam juntos e esforçavam-se por aprender. Eram os mais cultos entre os jovens que os rodeavam. Eram belos e galantes.
O amor do jovem mouro era correspondido por Constança, tanto mais que ele havia recebido as águas do baptismo. Mas o que ela não sabia era o drama íntimo de Abdalá quando via chegar das campanhas D. Fernão Gonçalves, com a espada tinta do sangue dos da sua raça. Para ele, aquele sangue era como se fosse o seu! E uma onda de revolta tomava-o de assalto. Nesses momentos só um pensamento o dominava: fugir e vingar-se! Tanto mais que o seu amor vivia escondido, receoso de uma represália de D. Fernão. Enchendo-se de coragem, foi procurar Constança.
 
O calor começara a declinar. O Sol descia no horizonte. Corria um vento fresco, mas a terra ainda estava quente. Num recanto do pátio quase privativo de Constança, Abdalá tinha uma expressão dolorosa, ao dizer:
— Constança... É preciso que eu parta!
Ela agarrou-se-lhe a um braço, suplicante.
— Não, não quero! És tudo para mim, bem o sabes! Já não tenho mãe nem irmãos!
— Ficas com o teu pai.
— Amo-te mais do que a meu pai!
— Mas pressinto que ele não nos deixará casar.
— Talvez o convença. Mas para isso terás de esquecer o ódio da tua raça aos nossos!
— E acaso o teu pai esquece o que tem aos meus? Bem leio nos seus olhos esse ódio que não terá fim.
— Mas foi ele quem te recolheu e te mandou educar!
— Enquanto criança! Hoje, já sei pegar numa arma. Sou portanto um inimigo.
— Talvez não. Tentarei falar-lhe.
— Será inútil, Constança! Se me afasto, levando a morte na alma, é porque receio que a minha presença te possa acarretar infelicidade. Quanto a mim… procurarei a morte do corpo num campo de batalha.
Constança encostou a cabeça ao peito do seu bem-amado. Chorava em silêncio. Ele abraçou-a com arrebatamento.
— Preciso que me compreendas! Se pudesse ter-te por esposa, nem que fosse uma hora, daria em troca a minha vida! Porém, ficaria louco de dor se te acontecesse algo por minha causa!
Abdalá calou-se. No lagedo do pátio ouvia-se um tilintar de esporas. Constança segredou:
— Vai-te! Vai-te embora, porque ele viu-nos!
— Não posso agora deixar-te sozinha!
— É preferível, peço-te! Se ele te encontra junto de mim, mata-te e nunca mais poderei perdoar-lhe! Foge, Abdalá! Suplico-te!
D. Fernão vira-os, na verdade, e compreendera tudo. Pegou na espada para a descarregar sobre Abdalá. Mas Constança gritou horrorizada:
— Poupai-o, mesmo à custa da minha vida, senhor meu pai!
Então, o jovem mouro resolveu fugir. Não para se livrar da morte, mas porque nesse momento todo o ódio recalcado da sua raça lhe gritou que deveria procurar vingança no campo de batalha. Ao afastar-se, Abdalá ouviu D. Fernão clamar:
— Maldito! Para sempre serás maldito!
As lutas continuavam ferozes, sanguinárias, de parte a parte. Do lado dos sarracenos o ódio parecia mais aceso ainda, desde que o rei de Córdova dera poderes a um jovem que viera do campo de Entre-Douro-e-Minho. D. Fernão mostrava-se mais excitado. Zangava-se até ao furor por qualquer ninharia, e os seus vassalos mais dilectos haviam-no aconselhado a ficar em Paços. Porém, D. Fernão rejeitava com desprezo esse conselho e estava sempre no mais aceso da luta.
Um dia, a batalha travava-se fora da região onde ele tinha os seus domínios. Ajudava o monarca D. Ramiro II na luta contra os infiéis. No meio da contenda, D. Fernão Gonçalves caiu do cavalo. Logo o rodeou uma turba de mouros. Mais de vinte adagas caíram sobre ele. Mas logo uma voz possante gritou:
— Quem o vai desarmar sou eu!
Os outros, vendo um dos seus chefes, retiraram as armas, embora sem perder de vista o ferido. O chefe mouro falou:
— D. Fernão Gonçalves! Sabes quem sou?
Mal podendo ver, pois a agonia aproximava-se, D. Fernão teve forças para responder:
— Sei quem és... És Abdalá, o maldito a quem poupei a vida!
— Que fizeste de tua filha?
— Que te importa?
— Amo-a, apesar de tudo!
— Pois... fica feliz! Vou morrer… e ela... espera-te!
— Onde?
— No salão nobre do meu palácio, onde cresceste e te fizeste homem!
— Porquê no salão nobre?
— Porque lá a fechei… antes de vir para aqui! E agora... satisfaz o teu ódio... mata-me!
— Não matarei o pai daquela a quem eu amo... Outros o farão por mim.
E dando costas, fez sinal para que não prolongassem a agonia de D. Fernão.
Terminada a batalha, que estava já no fim e fora ganha pelos mouros, Abdalá e alguns dos seus obtiveram licença para se embrenharem nos domínios de D. Fernão Gonçalves. Atravessaram rios e montanhas, ligeiros como o vento. Ao cair da noite, o jovem mouro chegou ao palácio. Parecia deserto. Nem um criado, nem um guarda. Arranjou luz e forçou a porta do salão nobre. Ao entrar, o quadro que se lhe deparou deixou-o horrorizado... Gritou:
— Constança, meu amor!
Mas ela não respondeu. Estava morta sobre um divã estofado de rico damasco. A seu lado, tombada no solo, ainda ensanguentada, uma das espadas de seu pai.
Abdalá caiu de joelhos, soluçando. Compreendia a terrível vingança de D. Fernão. Poderia ter-lhe dito que a deixara morta para que jamais lhe pertencesse. Mas preferiu dar-lhe a alegria de uma esperança, na certeza de que, assim, se vingaria duplamente!
Abdalá teve um acesso de loucura. Quis destruir tudo, incendiar o palácio. Só muito a custo o levaram dali. Porém, ao recobrar a consciência, não mais largou o campo de batalha. E só mostrou semblante feliz quando, certa tarde, caiu ferido num combate. Morreu a sorrir, proferindo o nome de Constança.