Quinta-feira 17 de Agosto, 2017
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D. Sapo

Lenda de D. Sapo
   
Houve um tempo em que os fidalgos se arrogavam o chamado “direito de primeira noite”, exigindo que as noivas recém-casadas do povo das suas terras com eles se deitassem na noite de núpcias... Era um costume aviltante, a que os povos apenas se submetiam por temor e falta de protecção.
Ora em Cardielos, não longe de Viana e das margens do rio Lima, viveu um nobre chamado D. Florentim Barreto que levava muito à risca este direito, e que o exercia sempre e sem excepções. Por isso, mais que pela forma injusta com que todos tratava ou pelos altos impostos que cobrava, o povo votava-lhe um ódio de morte. E chamava-lhe D. Sapo.
Sucede que um dia um jovem criado de D. Sapo prestes a casar não se conformou com a ideia de a sua noiva haver de se render à luxúria incontida do patrão. Mas uma acção directa de rebeldia poderia ter funestos desenlaces, pelo que o jovem apaixonado resolveu usar de manha.
Reuniu todos os criados do fidalgo, e teve especial cuidado em se rodear dos mais velhos e mais respeitáveis. E discutiram o assunto. Alguns fizeram-lhe ver que D. Florentim Barreto tinha muitos e poderosos amigos na corte d’el Rei, e que nunca a palavra de um grupo de criados seria ouvida ou tida em conta...
Mas o jovem noivo tinha um plano: foram em audiência ao pé do soberano e pediram a suprema mercê de que lhes fosse autorizada a morte de um terrível sapo, que pelas suas terras roubava a pureza às noivas e tiranizava os povos. O Rei sorriu-se da demanda que julgou ingénua daquelas gente simples, e mandou que tal sapo malfazejo fosse morto à sacholada. Pensou, de si para si, que com aquela sentença singela resolvera a questão...
Meu dito, meu feito: regressados a Cardielos os conjurados foram-se às sacholas e invadiram o solar de D. Sapo. Apanharam-no na alcova, dedicado aos seus prazeres favoritos, e nem hesitaram: as sacholas são uma arma terrível, principalmente quando manejadas por mãos calejadas de muitos anos de campo, e D. Florentim perdeu a vida num charco de sangue, naquele quarto onde violara tantas purezas virginais. E ninguém sentiu remorso daquele ensanguentado acto.
Contudo, a reacção dos amigos do fidalgo não se fez esperar, mal correu na corte a notícia que D. Florentim Barreto fora assassinado por camponeses revoltados. Foram prestes esses amigos ao Rei, clamando por justiça. O monarca, que não tolerava no seu reino desmandos tamanhos, chamou à sua presença os camponeses, com a firme intenção de os mandar para o cadafalso.
Mas as gentes de Cardielos replicaram: que fora el Rei a dar a ordem de morte do Sapo; que, por todo o Concelho, D. Florentim era conhecido por D. Sapo, sem margem para dúvidas; que os motivos que haviam levado o soberano a dar a ordem de execução do Sapo eram verdadeiros, e que isso era atestado por imensas testemunhas e muitas vítimas...
El Rei ponderou, e mandou em paz o povo de Cardielos e os executores da sentença. Regressados às terras do Lima, os camponeses derrubaram, pedra por pedra, a torre de D. Florentim, onde tantas e tantas donzelas tinham sofrido a mais vil das ignomínias, submetidas à luxúria insaciável daquele repugnante Sapo. Nada restou, a não ser a lenda de D. Sapo que ainda hoje corre as memórias dos povos de Cardielos.