Sábado 27 de Maio, 2017
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Juiz de Soajo

Lenda do Juiz do Soajo
  
Esta história passou-se há muito, muito tempo quando o Soajo era vila, com foral d’el Rei D. Manuel, e pelourinho onde se executava a justiça. Mas podia ser de hoje, porque a moral que encerra é eterna.
Nessa vila do Soajo, em Arcos de  Valdevez, havia um juiz, homem de grande respeito, saber e honestidade, chamado João Congosta. Decidia as causas da terra... um galináceo subtraído de uma capoeira, uma cabeça de gado que era desviada para uma corte alheia, uns pezitos de couves surripiados pela calada da noite... Normalmente nada de muito grave, se bem que João Congosta julgasse também, e sempre com sabedoria e justeza, cousas mais graves: uma briga com sacholadas e cabeças abertas porque um vizinho desviara uns poucos de metros um marco de divisão de terras, ou pancadaria velha por causa de um rego de água.
Um dia porém, o juiz foi chamado a um caso verdadeiramente complicado, que arrastava todo o povo num burburinho sem fim: um lavrador do Soajo, a quem um nobre dos Arcos devia uma boa soma de moedas, apareceu assassinado. E foi uma via dolorosa deslindar a meada desse crime. De ajuramentados que afirmaram falsidades a provas fabricadas, de tudo houve... mas João Congosta navegou a barca da justiça por essas águas turvas e arribou a bom porto, deslindando a tramóia e descobrindo os culpados: o fidalgo de mandante, e três meliantes a soldo, que haviam executado o crime.
Aplicou severamente as leis do tempo, e a todos quatro ditou pena capital. Mas o fidalgote tinha compadrios e protecção que iam até à corte d’el Rei, onde se afirmava já à descarada que o rústico do juiz do Soajo nada sabia de leis e da sua aplicação, denegrindo a honra e a vida proba de João Congosta. E subiu de tom o alarido na Corte, de tal forma que D. Manuel ordenou aos seus juízes que chamassem João Congosta, para esclarecimentos e explicações. Assim foi feito.
A intimação para comparência na Corte desagradou ao homem das serranias nortenhas, que apenas saíra uma vez da sua terra, para ir aos Arcos, em exercício da sua profissão. Mas eram ordens d’El Rei... equipado com a sua capa das audiências, rumou a Viana, onde embarcou para Lisboa.
Quando pôs pé em terra firme, no Terreiro do Paço, foi envolvido de imediato pela confusão da Capital. Barulho, movimento, carruagens e animais, pessoas de todas as cores e credos, produtos d’além mar apregoados nas ruas e nos mercados, cheiros estranhos, cores caóticas... Poupamos a descrição das dificuldades que o nosso juiz serrano encontrou para entrar no Palácio e ser recebido pelos seus pares da Corte, mas foram muitíssimas.
Chegado à sala das audiências, onde o aguardavam os juízes nomeados para aquele caso, já todos instalados nas suas cadeiras de espaldar, João Congosta percebeu num relance que não lhe haviam reservado lugar. Impávido, dobrou a sua capa umas quantas vezes, formou um assento e tomou posição. E aguardou, tranquilamente, que o inquirissem.
A sanha com que os seus colegas o assaltaram, os ardis que lhe montaram, as manhas de que se serviram, só poderiam ser explicadas se homicida estivessem a interrogar... mas o desprezo que nutriam ao parolo vindo das berças do Soajo foi-se esvaindo e transformando em pura admiração. Quando a função terminou, a sentença de João Congosta estava confirmada e o seu nome gravado como sendo de respeito, nas mentes daqueles citadinos presumidos.
João Congosta ergueu-se então, fez uma respeitosa vénia aos colegas e dirigiu-se para a porta. Um dos juízes chamou-o, dizendo que se esquecera da capa, ao que o homem das serras respondeu, em voz clara e que se ouviu por todo o Paço:
- O Juiz do Soajo não tem por hábito levar consigo a mobília onde se sentou!
A vergonha, os rostos corados, os olhos baixos foram evidentes do reconhecimento da grosseria que tinham cometido. Mas João Congosta não lhes deu o benefício de uma palavra de escusa: tomou o rumo da sua serra e lá continuou a exercer a sua profissão e a receber o respeito e o reconhecimento dos seus conterrâneos.